Quando o Corpo volta a Ser Casa

02-06-2026

Reaprender a linguagem do sentir como caminho de autoconhecimento e regulação

Há momentos em que algo em nós pede atenção. Deixamos de estar confortáveis no nosso próprio corpo. Pode começar de maneira subtil, quase a pedir-nos licença para entrar. De forma inconsciente, deixámos. E a permanência pode ser difusa; ela não grita. É impermanente. Não dramatiza, apenas pulsa.

Até que um dia, a visita torna-se permanente; Uma tensão no maxilar. Um peso no peito. Um vazio no abdómen.

Durante muito tempo, aprendemos a ultrapassar estas sensações. A racionalizar. A manter o controle. A funcionar. E o corpo, fiel à sua missão de nos proteger, foi adaptando-se. O que muitas vezes esquecemos é que o corpo não está contra nós. Ele está sempre a favor da nossa sobrevivência.

Como escreve Bessel van der Kolk, em The Body Keeps the Score, "O corpo mantém a marca do que a mente tenta esquecer."
O corpo não guarda para nos punir. Guarda porque a memória fisiológica é uma forma de proteção. O sistema nervoso aprende com a experiência. E, quando algo foi vivido como ameaça, o corpo passa a antecipar. Mas antecipar não é viver. E proteger não é o mesmo que estar seguro.

Reaprender a escutar o corpo começa com um movimento simples:curiosidade.

Peter Levine, criador da Somatic Experiencing®, recorda que "O trauma não está no evento, mas no sistema nervoso."

Isso significa que o que precisa de reorganização não é a história em si, mas a resposta fisiológica que ficou ativada. Quando, com suavidade, perguntamos: "O que estou a sentir agora?" e depois aprofundamos: "Onde sinto isto no corpo?" algo começa a mudar.
Dar nome à sensação — aperto, calor, formigueiro, contração — e localizar onde ela se manifesta ativa áreas do cérebro associadas à integração emocional, como o córtex pré-frontal medial. Daniel Siegel descreve este processo como "name it to tame it" — nomear para regular.

Ao identificar claramente o que sentimos e onde sentimos, criamos três movimentos reguladores:
1. Reduzimos a ativação difusa — a sensação deixa de ser um estado global de ameaça e passa a ser uma experiência localizada.
2. Restabelecemos orientação no presente — distinguimos entre memória e realidade atual.
3. Ativamos a função integradora do cérebro — o sistema nervoso passa de reatividade para organização.

Não é magia. É neurobiologia. É a curiosidade segura como gesto regulador.

Quando sabemos o que sentimos, o corpo organiza-se
A indefinição gera ansiedade, enquanto quando assumimos o que sentimos, transforma a clareza que gera a estabilidade. Quando alguém diz "estou mal", o sistema nervoso permanece em alerta. Quando essa mesma pessoa diz "sinto um aperto no peito e uma pressão nos ombros", o estado interno torna-se mais concreto, mais delimitado. Mais fácil de digerir porque nele tem a definição de um local (isso não define todo o meu sentir, todo o meu território corporal) e nome. Eu sei o que sinto e como sinto. Se consigo nomear, é porque isto existe.

Existir traz-nos segurança.

Stephen Porges, com a Teoria Polivagal, explica que a segurança não é apenas uma ideia — é uma experiência fisiológica. O corpo precisa de sinais de previsibilidade para sair do modo de sobrevivência.

Como seria para ti experimentar nomear as tuas sensações boas, neutras e menos boas? Pode ser que este pequeno exercício abra espaço dentro de ti para conheceres mais como te sentes e como colocas significado naquilo que sentes.
Localizar sensações cria previsibilidade interna.

O sistema nervoso compreende que há consciência. E consciência é um marcador de segurança. Tu começas a saber com quem estás a lidar.

Ora essa(!), contigo mesma. E não é que, afinal, sentir pode ser seguro? Pode haver dor, mas pode haver sensações agradáveis, aprendizados, linguagem de um alfabeto que precisas treinar todos os dias para poderes falar com fluência.
Com o tempo, isto traduz-se em benefícios muito concretos:
● maior tolerância ao desconforto emocional;
● redução da hipervigilância;
● melhoria da capacidade de tomar decisões com clareza;
● maior estabilidade nas relações;
● recuperação mais rápida após momentos de stress;
● sensação de enraizamento e presença.

Sentir com consciência não aumenta a dor. Organiza-a.
Quando olhamos para dentro de nós com mais curiosidade e, com segurança do que nós é possível até aquele momento, passamos a chamar por tu o nosso próprio sentir; o continente que habitamos e que chamamos de corpo.
Há caminhos que nos ajudam a cultivar esta escuta de forma acompanhada, estruturada e segura. Caminhos onde o corpo deixa de ser um território desconhecido e se torna um aliado. Porque talvez o verdadeiro autoconhecimento não seja descobrir algo novo, mas recordar aquilo que o corpo sempre soube.
E quando isso acontece, o sentir deixa de ser ameaça.
Passa a ser casa.
Como é para ti habitar o teu corpo?

Camila Leite
Terapeuta Somática |Psicoterapia Corporal | Especializada em Trauma e
Regulação do Sistema Nervoso
www.camilaleitesomatica.pt
Consultas presenciais em Lisboa e Oeiras.
Consultas online, via Zoom.

Share